Carol: Qual sua posição em relação às novas tecnologias?
Ana: Como tudo na área da educação, podem ser usadas para efeitos positivos e para objetivos que não vão resultar em maior aprendizagem. A tecnologia no ensino se encaixa nesta perspectiva. Costumo dizer que trabalhar com a diversidade cultural dos nossos alunos, professores e escolas implica na sensibilidade real à esta diversidade. Isto é o que eu defendo no multiculturalismo, que é o conjunto de respostas à diversidade cultural. O que é a diversidade cultural? Diversidade étnica, racial, de classes sociais, de linguagem. Então se o professor, se o gestor educacional está atento à esta diversidade, se está sensibilizado para isso, pode usar qualquer recurso para ter resultados positivos, de valorizar essas culturas, de estabelecer um diálogo com essas culturas e promover efetivamente a aprendizagem.
No caso das tecnologias é a mesma coisa. O professor ou os alunos têm um computador, ou mesmo outras tecnologias como o vídeo, a televisão, são recursos que ajudam imensamente a área da educação. Nós somos muito privilegiados de termos esses recursos dentro da evolução da tecnologia. Mas isso não diminui o que eu tinha dito antes, é o professor que vai selecionar as mensagens que quer transmitir aos alunos, as atividades que quer comentar por intermédio das tecnologias, a forma como ele vai apresentar. Conjugar a tecnologia, que é um avanço extraordinário com a sensibilidade para um diálogo com as culturas, dosar as mensagens em linguagem compreensível, isso é um casamento perfeito.
Carol: O uso das tecnologias da informação e comunicação na educação está cada vez maior: a interação via rede, softwares de ensino, capacitação de professores para uso das novas tecnologias, experiências com e-mail, chat, portais, blogs etc. Tudo isso provoca o jovem de tal forma que sua atenção fica difusa?
Ana: Depende de como é tratado. Eu sempre defendo que você deve incentivar o aluno a ser um pesquisador. Ele não pode ser simplesmente uma pessoa que vai absorver passivamente os conhecimentos. Para ele ser um pesquisador, o professor primeiro tem que estar sensível à diversidade cultural. Quem são esses alunos com quem ele lida, de que comunidades são provenientes, quais são as culturas, quais são as linguagens, pra ele poder utilizar as ferramentas que vão ao encontro deste diálogo.
Em segundo lugar, ele tem que provocar de modo que esses alunos sejam pesquisadores. Como é que se faz uma pesquisa? Toda pesquisa surge de um problema. Se não há problema não tem o que pesquisar. Então quando a tecnologia é utilizada para que o aluno venha ser um pesquisador, para problematizar algum aspecto da realidade e pesquisar como resolver esse problema, ela não vai ocasionar a difusão. Existe a difusão se o professor não direcionar a pesquisa de forma correta. O tema não pode ser muito genérico, tem que dar um problema, ser mais específico, para o aluno não dispersar, porque o aluno não sabe o que é relevante e o que não é. Não sabe se um hiperlink é importante para o tema principal…
Sem direcionamento o aluno pega tudo o que vê pela frente como se fosse uma pesquisa, mas ele se perdeu, ficou confuso, se dispersou, como vc colocou muito bem. Mas se o professor dá um problema específico, faz perguntas exatas, a pesquisa virtual tem foco, parte de um problema, não é um tema amplo. Por mais que o aluno tenha várias informações naquela tecnologia, ele não vai se dispersar porque tem um fio condutor, tem um problema a responder. A base tanto para a tecnologia quanto para qualquer outra área da educação é o professor que conjugue os benefícios da tecnologia com um bom preparo que ele tenha, uma boa formação seja inicial ou continuada que lhe permita fazer de seus alunos pesquisadores, problematizadores. Ele guia, dá o fio condutor para este aluno mergulhar nos recursos tecnológicos e promover as respostas, promover uma aprendizagem efetiva.
Carol: Quanto maiores as oportunidades, mais chances as crianças e os jovens têm de desenvolver suas potencialidades. A escola tradicional está engessada e seu trabalho defende “diferentes idéias para diferentes pessoas e instituições.”. A escola eficaz deve oferecer educação musical, artística, e/ou religiosa; ensinar línguas e direitos humanos e/ou do consumidor?
Ana: O currículo é algo muito importante, central mesmo em uma escola. Uma escola eficaz, um sistema educacional eficaz se assenta num currículo eficaz. O que seria no meu entender um currículo eficaz? Seria tanto o da escola quanto o de formação dos professores. Não só de formação inicial, aquela que acontece nas universidades, como a formação em serviço, através das parcerias, que as secretarias de educação fazem com professores, com pesquisadores, com instituições de ensino superior para fornecer um currículo de formação de professores, neste caso em serviço continuado, que seja um currículo efetivo, que seja um currículo relevante. O currículo eficaz não precisa ser um somatório de conteúdos, porque senão acrescenta-se um monte de conteúdos e isso acaba que não tem fim.
O currículo é a alma da Educação. Tanto o das escolas como o de formação inicial e em serviço, dos professores. O que seria um currículo relevante? No caso da escol não adianta ficar acrescentando conteúdos. O currículo deve ser uma articulação muito bem feita entre conteúdos, competências e habilidades. Você não quer só uma criança que decore conteúdos de todas as áreas, você quer que ela seja estimulada a desenvolver competencias e habilidades. Por exemplo, você quer que ela desenvolva uma habilidade de respeito às diferenças se você está dentro de uma visão multicultural. Uma competência de lidar com essa diversidade, pois ela vai ser um profissional que no futuro vai ter que lidar com o mundo em transformação, com as tecnologias, vai ter que lidar com a diversidade das pessoas, tem que ter esta competência de aceitar as diferenças, de lidar com isso.
Então o currículo eficaz não é só aquele que vai acrescentando conteúdos, é aquele que articula esses conteúdos à criação, ao desenvolvimento de habilidades, e para isso não precisa de uma quantidade enorme de conteúdos. Alguns conteúdos básicos que possam servir de estímulo à atividades como estudos de casos, laboratórios, simulações, dramatizações que vão estimular o desenvolvimento dessas competências, a competência de lidar com a diversidade cultural. A competência de admitir que existem visões diferenciadas da vida e que nós temos que colocar um pouco entre parênteses os nossos próprios valores.
Existem visões diferenciadas da vida e nós temos que colocar um pouco entre parênteses os nossos valores.
Habilidade de estudo. Muitas pessoas as vezes têm na escola aqueles conteúdos todos, mas o currículo não está fornecendo oportunidades de desenvolver habilidades de estudo individual, de procurar informação na tecnologia, de problematizar um assunto. Direitos humanos, teatro, música, são partes importantes do currículo, mas tem que haver em primeiro lugar um diálogo, desses conteúdos com a diversidade das crianças, com as habilidades. Nem todos tem potencial para todas as coisas.Tem que tentar conhecer a diversidade cultural, étnica, de linguagem dos alunos e tentar dar à eles um pouco de poder para escolher caminhos nesse currículo de acordo com as suas habilidades e suas tendências é um dos caminhos bons. Em algum momento, se ele em conjugação com professores e gestores achar que a música é um caminho que tem a ver com suas potencialidades, tem que perseguir níveis mais aprofundados de música. Oferecer a oportunidade de um currículo variado no primeiro momento, mas tentar entender a diversidade cultural e ir aprimorando de acordo com as potencialidades, este é o primeiro aspecto.
O segundo aspecto é que todos esses conteúdos não sejam exaustivos, que sirvam não só para dar as informações necessárias como também para estimular competências e habilidades. Competência para lidar com o diferente, a habilidade de lidar com a diversidade, habilidades éticas, comportamento ético. O currículo eficaz não é um somatório de conteúdos. São alguns conteúdos que estejam em diálogo com as potencialidades, com as singularidades das crianças, com as necessidades do momento atual e que forneçam elementos para se trabalhar com habilidades e competências e não só com conteúdos a serem detonados.