terça-feira, 23 de março de 2010

A polêmica da demissão de professores

“If a school continues to fail its students year after year after year, if it doesn’t show signs of improvement, then there’s got to be a sense of accountability,” President Obama.

“Se uma escola continuar reprovando seus alunos ano após ano, após ano, se não mostrar sinais de progresso, terá que sofrer algum tipo de responsabilização,” Presidente Obama.*

O trecho acima foi retirado de uma matéria do New York Times publicada dia 06 de março do corrente. Os EUA está vivenciando um grande debate sobre a necessidade de demitir os professores ruins. A estabilidade de emprego nunca foi tão questionada. Aqui no Brasil este debate já começou, ainda que tímido. Os sindicatos são a grande ameaça para que medidas enérgicas sejam tomadas e mudanças significativas aconteçam nos sistemas educacionais de todo o mundo.

O ex-secretário de educação do Rio de Janeiro, Claudio Mendonça, palestrou no ano passado sobre diversos sistemas educacionais e destacou o exemplo da Finlândia:

“É lá que estão os melhores indicadores educacionais do planeta. Melhores até que dos da Coréia. Eles entram na escola aos sete anos e não aos seis. Eles chegam a ter dois anos acima da média européia. Eles têm, pelo menos, quatro anos de escolarização acima do Brasil, ou seja, uma criança com 14 anos na Finlândia tem um indicador de solução de problemas de Matemática ou de linguagem e interpretação de texto melhor do que uma criança brasileira com 14 anos, que tem o indicador pior do que uma de 10 anos na Finlândia. Não vai dar tempo de mostrar, mas vai estar na Internet para vocês, mostrando entre os municípios do Rio de Janeiro, crianças com 10 anos, crianças com 14 anos de idade com indicador de Língua Portuguesa e de leitura inferior a uma criança de 10 anos. No Estado do Rio, em redes públicas diferentes. E o indicador de gasto por aluno, vocês vão ver que o gasto por aluno não tem uma relação direta com o desempenho dessas crianças.

Na Finlândia, eles trabalham muito a questão da equidade, não tanto quanto os outros países, como faz a Coréia. Na Finlândia, eles trabalham com um professor a mais em sala de aula para fazer o acompanhamento das crianças que têm determinadas dificuldades, que podem ser dificuldades de natureza neurológica, cognitiva ou emocional, ou pela questão socioeconômica, dão aulas de reforço e, efetivamente, um esforço coletivo e uma visão da sociedade contra essas dominações de que falei anteriormente. A Finlândia tem altos indicadores educacionais, porém a única coisa que eu vi efetivamente boa é uma grande autonomia dos diretores de escola. Podem contratar e demitir os professores diretamente. Eles é que fazem a folha de pagamento. Isso é uma diferença administrativa enorme entre a escola pública desse país e de vários países do mundo.”

Claudio Mendonça

“Seminário Política Educacional para uma Escola Eficaz”

Realizado nos dias 23 e 24 de março de 2009, no auditório da Fundação Escola de Serviço Público do Governo do Estado do Rio de Janeiro


* Tradução livre

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New York Times
http://www.nytimes.com/2010/03/07/education/07educ.html

School’s Shake-Up Is Embraced by the President
Published: March 6, 2010
A Rhode Island school board’s decision to fire the entire faculty of a failing school may have lasting ripples on the nation’s education debate.

“Precisamos contribuir para criar a escola que é aventura, que marcha, que não tem medo do risco, por isso que recusa o imobilismo”.

A escola em que se pensa, em que se atua, em que se cria, em que se fala, em que se ama, se adivinha, a escola que apaixonadamente diz sim a vida”...

Paulo Freire

sexta-feira, 12 de março de 2010

Leitura Interessante

Lendo "Earth in Mind", de David Orr, sem tradução para o português, infelizmente. Muito bom o livro. Fala sobre a necessidade de um novo currículo educacional nesta nova era. De uma mudança de pensamento para um mundo mais sustentável. Será que vai ser preciso uma catástofre mundial para implantarmos as mudanças necessárias?

Leia mais sobre o assunto:

Educação e Inovação para Sustentabilidade (parte 1)


Livro:
Earth in Mind
On Education, Environment and the Human Prospect
David W. Orr

"Terra em mente: Na educação, no Meio Ambiente e a Perspectiva Humana"*
*Tradução livre

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Shift Happens: estamos prontos para o futuro?


Ano passado o vídeo 'Shift Happens' foi exibido em uma das aulas do Professor Farrell e ontem uma nova versão foi apresentada em aula. Debatíamos mais uma vez sobre as mudanças econômicas e as implicações na Educação mundial.


Resolvi pesquisar um pouco mais sobre ele e achei a página oficial dos educadores que criaram os vídeos originais.
Karl Fisch e Scott McLeod, explicam que o crescimento econômico da Índia e da China não deve ser visto como negativo, como a maioria dos analistas e estudiosos norte-americanos apontam.


Eles acreditam que este fato significa apenas que as oportunidades no mundo estão sendo ampliadas. Eles desejam que todas as crianças sejam bem-sucedidas. E este desejo deveria ser global.


O conceito de globalização e de “mundo plano” (onde comercialmente todos têm as mesmas oportunidades no mercado global) tem suas desvantagens assim como toda forma de mudança social - o que é chamado de “societal shift”.

“We prefer, however, to focus on the positive benefits and on doing what we can to help children learn and grow so that they may become successful digital, global citizens”, eles afirmam.


Preferimos, no entanto, focar nos lado positivo e trabalhar soluções para ajudar a nova geração a aprender e crescer, no sentido de se formarem cidadãos bem-sucedidos nesta nova era digital (tradução livre).


Assista a última versão:





quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

The Function of Schools

"The important thing is to be able to obey orders, and to do what you're told, and to be where you're supposed to be. The values are, you're going to be a factory worker somewhere - maybe they'll call it a university - but you're going to be following somebody else's orders, and just doing your work in some prescribed way. And what matters is discipline, not figuring things out for yourself, or understanding things that interest you - those are kind of marginal: just make sure you meet the requirements of a factory."

Noam Chomsky, contando a história pessoal de seu melhor amigo, que era chamado na sala do Diretor se chegasse 3 minutos atrasado, mas quando tirava um "C" ninguém fazia nada...

O longa metragem "We are the people we've been waiting for", tema do post de 12 de novembro do ano passado, fala exatamente sobre isto. Não precisamos mais de trabalhadores de fábricas. Para isso a tecnologia criou as máquinas. Precisamos de uma geração de novos talentos.

A Função das Escolas

O último post falava sobre os debates que tenho tido em torno da função da escola. Citei meu professor de Educação para a Sustentabilidade, Robert Farrell. Ele nos lembra que o ato de educar vem recebendo críticas cada vez mais freqüentes: a falência do processo de aprendizagem, escolas sendo consideradas “máquinas de triagem” ou reprodutoras do status quo....

Um livro excelente que ele indicou para esta reflexão chama-se “Education as enforcement: the militarization and corporatization of schools” ou, em português (tradução livre) “A Educação como coação: a militarização e corporativização das escolas” (2003).

Os autores são David Gabbard e Kenneth J. Saltman. Gabbard é bacharel em Língua Inglesa, mestre e doutor em Educação (Fundamentos da Educação). Tem 5 livros publicados e reconhecimento internacional por suas contribuições críticas para as políticas públicas educacionais e teorias educacionais democráticas. Saltman, 9 livros publicados, tem bachalerado em Filosofia, mestrado e doutorado em Educação (Currículo e Instrução – creio que no Brasil também pode ser traduzido por Currículo e Ensino).

Infelizmente o livro não foi traduzido para o português. A linguagem é simples e o capítulo que mais me interessou está escrito em forma de entrevista. Chama-se “A Função das Escolas - métodos simples e sutis de controle” (tradução livre), por Noam Chomsky.

Noam Chomsky é linguista, filósofo e ativista político, professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Com dezenas de livros publicados, Chomsky também é um crítico afiado dos meios de comunicação de massa e de seu papel no apoio aos interesses das grandes empresas e dos governos (especialmente o americano).

Ele destaca na entrevista que as Universidades são organismos parasitas, que necessitam de investimentos de governos e outras instituições e corporações, além das matrículas particulares. Para que continuem recebendo estes fundos, precisam servir a estes grupos.

Chomsky lembra ao leitor que quando as Universidades começaram a deixar que os alunos debatessem muito livremente (como no final dos anos 60 nos EUA – e aqui podemos dizer que o mesmo aconteceu durante o Golpe Militar); instituições como a IBM começaram a criar seus próprios institutos de educação vocacional. Grandes empresas corporativizam a educação para que ela sirva seus propósitos.

A reflexão que aqui fica é o quanto estamos deixando que o mercado, a globalização, os governos, enfim, as estruturas que estão no poder, dominem quase que totalmente a forma como ensinamos. Simplesmente pelo fato de que é fácil e eficiente treinar pessoas para esses fins...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Iluminismo Ambiental: Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?

Estou participando de debates muito interessantes ligados ao tema da sustentabilidade. O que mais têm me chamado a atenção é o tema ligado à Ecologia Urbana. As pessoas não pensam nas cidades como parte da Natureza. Tradicionalmente, o estudo da ecologia tem sido aplicado aos sistemas naturais de tal forma que o impacto humano foi excluído da equação biológica (Lord et.al., 2001*).

A conclusão recente é de que as cidades, são sim, verdes! Este é um novo conceito que desafia os cientistas tradicionais a pensar e agir de uma nova forma. Com o objetivo de disseminar este novo conceito é importante incorporar no ensino tradicional a importância da Pegada Ecológica – tema do post de 17 de janeiro de 2010. É essencial qualificar os educadores para que eles promovam debates sobre a percepção das relações entre todos os sistemas naturais.


Principalmente as cidades (ecossistemas urbanos) e os ecossistemas selvagens. Para que possamos ter um mundo mais sustentável é necessário que as novas gerações entendam a importância da preservação dos ambientes naturais, seja qual for o caminho profissional que eles sigam no futuro.


Citando meu professor de Educação para a Sustentabilidade:

"Uma mudança de consciência, que é vital para a mudança de comportamento, é muito difícil de alcançar e exige o processo desafiador e lento de desaprender e reaprender."*
Professor Robert Farrell
Florida International University


Educação para a Sustentabilidade significa educar para um mundo mais justo, o que envolve os pilares econômicos, sociais e ambientais. Citando o Professor Farrell mais uma vez, o ato de educar vem recebendo muitas críticas: a falência do processo de aprendizagem, escolas consideradas “máquinas de triagem” ou reprodutoras do status quo....


O que deveria ser ferramenta de transformação social se transformou em uma fábrica de força de trabalho. Força utilizada por governos para a busca incessante pelo poderio econômico no mercado globalizado (escravizando e sufocando talentos individuais) e até mesmo a Guerra (a exemplo dos EUA).


Estamos no Século XXI, mas a Educação ainda está nos moldes ultrapassados. Continuamos formando gerações de “tijolos” (vídeo abaixo) para servir este sistema econômico massacrante e injusto. E sem a menor capacidade crítica e de transformação...


*Tradução Livre (Natural Cities: Urban Ecology and the Restoration of Urban Ecosystems)



Leia também:

Educação, criatividade e atividade física

Nosso Sistema Educacional Funciona?

Interdisciplinaridade: Educação para a Sustentabilidade

Aprendizagem Sustentável

As Crianças e a Natureza



quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Lixo: um problema crescente

Na mesma época em que a Reuters e a Times Britânica noticiavam que o Brasil e Gana estavam sendo tratados como lixeira pela Inglaterra (julho-agosto/2009) a CBS denunciava no programa 60 MINUTES (agosto/2009) que a China é o alvo para o despacho de lixo eletrônico proveniente dos EUA.

Países subdesevolvidos e em desenvolvimento são o alvo de nações mais desenvolvidas e o que parece é que as autoridades fecham os olhos para este problema, principalmente com o avanço tecnológico e o crescimento do lixo eletrônico.

O mais interessante foi os nossos meios de comunicação não terem dado a atenção necessária ao ocorrido. Não é só uma questão de bom senso. A ONU tenta proteger este tipo de prática com a criação de acordos internacionais, como a Convenção de Basiléia sobre o Controle de Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e seu Depósito (
The Basel Convention on the Control of Transboundary Movements of Hazardous Wastes) visando justiça ambiental.

Está faltando fiscalização e punição para os que traficam lixo no mundo...

Assista aqui "The Wasteland" (somente em inglês):

Watch CBS News Videos Online

O IDEC - Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor explica como descartar lixo eletrônico: Tecnologia que vira lixo.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Interdisciplinaridade: Educação para a Sustentabilidade

Complementando o último post, sobre o filme 2MM (2 milhões de minutos), vou escrever um pouco sobre o erro em tratar a Educação apenas como meio para produzir consumidores e trabalhadores. Focando apenas na busca de sucesso econômico pelos países, estamos educando as crianças sem a oportunidade de elas desenvolverem seus talentos individuais. Isso foi assunto no post de novembro de 2009 “Nosso sistema educacional funciona?” e também no de julho de 2009 “Educação, criatividade e atividade física”.


Um artigo inquietante intitulado “US students rank 11th in Science, 9th in Math: should we go back to basics?” (Alunos americanos estão em 11o e 9o lugares em Ciências e Matemáticas, respectivamente, no ranking mundial: sinal de que deveríamos enfatizar o ensino tradicional?*) foi analisado em sala na semana passada e mostrou o quanto ainda pouco se debate sobre interdisciplinaridade. E daí para a aplicação então, nem se fala.


A autora da matéria, Donna Gundle-Krieg, cita outro artigo “Schools Should Stick to Basics and Resist Green Fad” (Escolas deveriam se concentrar no ensino tradicional e resistir à onda verde*), de Russ Harding, que defende o foco no ensino das Ciências e das Matemáticas. Apenas.


O problema do artigo de Donna, considerada jornalista especializada em Educação, foi ter reproduzido o artigo de Harding, um burocrata conservador e de índole duvidosa – foi condenado por desfalque na prefeitura de Nova Iorque na administração de Giuliani e também por posse de pornografia infantil – sem criticar a falta de contexto do mesmo.


Harding apresenta informações de um relatório que leva o leitor a acreditar que os empregos que estão surgindo juntamente com a consciência verde (e.g. energia eólica e solar) não vão crescer. O que crescerá será o campo de energias alternativas tradicionais, como o carvão, o gás natural e a energia nuclear. Harding acrescenta que os alunos que ganharão o mundo serão aqueles que dominarem as Matemáticas, a Engenharia e as Ciências. E emenda que as aulas ligadas à educação ambiental deveriam ser totalmente abolidas.


Que fortalecer o ensino das Ciências e das Matemáticas é importante, os educadores já sabem, mas Harding esquece que existe interdisciplinaridade na Educação. Qualquer matéria ligada ao meio-ambiente pode ser incorporada tanto no estudo de matérias da área das Ciências Humanas quanto no de “Ciências pesadas”, como ele chama o que engloba também a Biologia e Geologia.


Outro erro feito pelo burocrata foi enfatizar a 'corporativização' da escola. Assunto ainda não muito debatido e que precisa de mais atenção na área educacional. As forças de mercado não podem continuar ditando as regras, assim como não queremos continuar produzindo gerações de consumidores e trabalhadores. Queremos uma geração de cidadãos talentosos e criativos, com a consciência de que o mundo pode ser um lugar melhor para se viver e sem que o dinheiro e o poder dominem as relações humanas.


* Tradução livre

domingo, 17 de janeiro de 2010

O que você quer ser quando crescer?


O documentário 2MM (infelizmente somente em inglês) prova mais uma vez de que o sitema educacional é o reflexo da sociedade. A escola já cumpriu diversos papéis, como preparar países para a Revolução Industrial e para a Guerra. O filme em questão compara e contrasta o sistema educacional no ensino médio (high school) da Índia, China e Estados Unidos.
O produtor Bob Compton explica que o nome 2MM (2 million minutes, ou 2 milhões de minutos em Português) vem do fato de que no período de 4 anos uma pessoa vive aproximadamente 2 milhões de minutos, ou seja, o tempo de duração do ensino médio. O documentário mergulha nos hábitos das famílias nos 3 países, analisando de perto os relacionamentos entre pais e filhos, além do próprio sistema de educação.
O ensino médio é considerado crucial na preparação do cidadão para a vida social e para o mercado de trabalho. O modo como a sociedade se desenvolve nesses 2 milhões de minutos dita o futuro econômico do país. Ele destaca o papel da família e também a valorização do que é ensinado.
Penso que é necessário investir no desenvolvimento de talentos nos campos das ciências e das matemáticas, além de reformar o sistema educacional para estimular a criatividade dos alunos. Com a globalização, o mundo está encolhendo e, em breve, não será mais necessário passaporte para ser empregado. Aqueles com as melhores habilidades ganharão o mundo.

O documentário está dividido em partes no Youtube.

Pegada Ecológica

O quanto seu estilo de vida demanda da Natureza?

A "Pegada Ecológica" ou Ecological Footprint em inglês, é um indicador de sustentabilidade ambiental. O índice examina a dimensão dos impactos negativos que as atividades exercidas por nós causam junto às fontes naturais. Cada estilo de vida demanda uma certa quantidade de matéria e energia da Natureza, produz resíduos e provoca emissões de gases que desestabilizam o meio ambiente.

A organização sem fins lucrativos Center for Sustainable Economy disponibiliza no site http://www.myfootprint.org um teste para medirmos o impacto que causamos no meio natural. Além de mudarmos pequenos hábitos - o que já ajuda bastante - também podemos neutralizar nosso impacto investindo em projetos ambientais. Os projetos são diversos: recuperação florestal, projetos de geração de energia limpa (eólica, fotovoltaica, biomassa, solar e outras formas), aterros sanitários, entre outros. No Brazil o Programa Carbono Neutro também disponibiliza o teste: http://www.carbononeutro.com.br/.

Fiz o teste e descobri que se todos tivessem meu estilo de vida precisaríamos de mais 30% da Terra, (Ecological Footprint = 1.30) porque uma só não segura! Para começar a contribuir e diminuir o peso na consciência doei US$ 10 e tirei da tomada todos os aparelhos fora de uso.

Quiz results: Ecological Footprint Quiz by Redefining Progress

Excelente reflexão


O quanto de Boris existe em você?

William Douglas é juiz federal e professor.

Após ouvir lixeiros desejarem "feliz 2010", Boris Casoy disse "... que m----, dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras... (risos) ... dois lixeiros... o mais baixo da escala do trabalho." O episódio chocou. As reações que está sofrendo são exageradas? Ou ele as merece? Os lixeiros desejaram a todos (inclusive a ele, portanto) "paz, saúde, dinheiro, trabalho" e o que se seguiu foi, usando sua terminologia, "uma vergonha".

O pedido de desculpas, protocolar, não teve eficácia, talvez até o contrário. A oposição entre a imagem do apresentador e o comentário em off, revelador de uma visão elitista e preconceituosa, frustrou a ideia de respeito a todos e ao telespectador (imaginem o filho de um gari ouvindo isso). A rudeza dos comentários não se resolve por ter sido um acidente e não é fácil pedir desculpas pelo que se é ou pensa. Contudo, até que ponto a diferença entre nós e o Boris reside apenas no azar que ele deu pelo vazamento? O quanto de Boris existe em cada brasileiro?

Quando alguém se refere ao ponto "mais baixo na escala do trabalho" pode estar se referindo ao conteúdo moral ou social da atividade (como, por exemplo, criticar o tráfico ou a agiotagem), pelos riscos ou pela remuneração reduzida. A atividade de lixeiro não é nociva à sociedade. Nocivo seria, para a saúde e meio ambiente, que eles não atuassem. Como o risco não é tão grande, por eliminação, resta a remuneração. E aí reside um preconceito que resiste: julgar a dignidade das pessoas, ou das profissões, de acordo com sua remuneração. Há que se reconhecer que nem sempre existe equilíbrio entre a importância social de uma função e os ganhos que esta proporciona. E não se pode confundir o desejo de melhorar de vida ou ganhar mais, e a admiração por quem logra isto, com uma postura de menoscabo com as funções menos rentáveis.

Todo trabalho é digno. O que existe, em cada ofício, são pessoas que agem bem e outras não. Existem servidores públicos, CEO"s, lixeiros, jornalistas e juízes dignos e indignos, o que se define pela forma como exercem sua atividade. Mais que isso, Jesus dizia que "a vida do homem não consiste na abundancia dos bens que possui".

Se você, leitor, julga alguém melhor ou pior levando em consideração o quanto a pessoa ganha, ou como se veste, ou onde mora, é preciso reconhecer que em você há, escondido, um pouco desse lado sombrio que o Boris revelou ter. Talvez o lado positivo desse episódio seja a reflexão sobre até que ponto ele não revela nossos preconceitos em off.

Camila Pitanga, que faz o papel de uma faxineira na novela global, afirmou que anda pelo estúdio sem ser cumprimentada quando está com os trajes da personagem. Feliz pelo papel ser convincente, não deixou de anotar como é estranho ficar "invisível", Esse fenômeno já foi objeto de estudo por um professor da USP que, vestido de faxineiro, ficou "invisível" na universidade, por anos. Em suma, quem deixa de ver o faxineiro, não deixa de ter seu lado Boris. Não que o Boris seja de todo mal, ele não é. Ninguém é. Somos todos humanos, com nossos lados luminosos e sombrios.

Boris também errou ao analisar a função de lixeiro. Os "'garis" são figuras simpáticas à população, vivem de bom humor e, ao lado dos carteiros, têm índices de aprovação e confiança que fazem corar os Poderes, a igreja e a imprensa. Infelizmente, estas instituições não são eficientes para limpar seus respectivos "lixos" como os garis o são com o lixo que lhes cabe. Por fim, não esquecer que - com seu jeito e ginga - um gari ilustra o vídeo institucional da bem sucedida campanha "Rio 2016". No Rio, os concursos para gari são concorridíssimos.

(...)

E você, leitor? Cumprimenta seu lixeiro? O garçom? A babá da vizinha? O porteiro? Você os vê? Aquele áudio procura você. Se você se julga, ou julga os outros, por quanto ganha, por qual carro tem, ou se não tem um, então o episódio pode revelar esse lado do Boris em seu cotidiano. Melhor que apenas discutir o que fez o Casoy é também questionarmos até que ponto reconhecemos o valor de todo e qualquer trabalho honesto.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Educação para a Sustentabilidade

"A change of consciousness, which is vital to change behavior, is most difficult, and often requires the very challenging and slow process of unlearning and reeducating."
Professor Robert Farrell
Florida International University

"Uma mudança de consciência, que é vital para a mudança de comportamento, é muito difícil de alcançar e exige o processo desafiador e lento de desaprender e reaprender." *
Professor Robert Farrell
Florida International University

*Tradução livre.

Quando a falta de bom senso grita

Um garfo, uma colher ou uma.... arma?!

Matéria do NYT discorre sobre a falta de bom senso das escolas americanas ao julgar casos de tolerância zero.

O aluno Zachary Christie, 6 anos, foi suspenso por 45 dias por levar para a escola um "instrumento" que ganhou ao ingressar no grupo de Escoteiros. O tal aparato é um misto de garfo, colher e faca. Devido aos acontecimentos ocorridos em Columbine e Virginia Tech, muitas escolas americanas adotaram tolerância zero para com "armas". O problema é que cada caso deve ser analisado separadamente.

A mãe de Zachary ensina o garoto em casa enquanto aguarda a decisão das autoridades. Para isso conta com o apoio da opinião pública no site helpzachary.com. Esta não é a primeira vez que a tolerânci zero vai longe demais nos EUA. Outra aluna foi expulsa por 1 ano (!!) no dia de seu aniversário após levar para a escola um bolo de chocolate acompanhado de uma faca para cortá-lo ... A professora reportou o caso ao Diretor, mas não sem antes usar a faca para cortar o bolo...

Além da falta de bom senso absurda, estudos mostram que alunos Afro-Americanos são mais sujeitos à suspensão do que outros alunos em casos idênticos.

Mais uma prova de que o sistema educacional precisa de revisão.

Fonte: NYT

Deu no Ex-Blog

CINQUENTA ANOS DA MORTE DO ESCRITOR ALBERT CAMUS!

Abertura do artigo de Jean Daniel (editorialista do Le Nouvel Observateur), El País (11): Será 2010 o ano de Camus?

1. Este ano novo será camusiano? Faço essa pergunta porque escrevo no dia do quinquagésimo aniversario da morte do autor de "O primeiro homem". A resposta é "sim". E não pelas prodigiosas homenagens que lhe dedicam. Estas deixam atônitos aos que sabem do purgatório, e inclusive do inferno a que lhe relegaram durante tanto tempo a maioria dos intelectuais franceses.

2. Mas pelo homem que pensou e refletiu sobre o suicídio, o assassinato, a revolução e a rebelião, impondo-se, como disciplina, uma lucidez extrema. É o pensador que abominou o absoluto, cultivou a dúvida, introduziu o heroísmo no comedimento e antecipou que em seguida, teríamos que tentar conservar o mundo em vez de tentar mudá-lo. Esse homem definiu um comportamento e uma atitude, em vez de um credo. E é isso exatamente o que necessita nossa época.

Fonte: Cesar Maia